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Haiti: vida e morte indignas
05.03.2010 - Por José Elias Flores Júnior (*)
A tragédia haitiana causada pelo recente terremoto que destruiu o país vem sendo amplamente divulgada pela imprensa mundial e realmente não têm precedentes. Fala-se em mais de 150 mil mortos. O desespero dos filhos, pais e mães sobreviventes emociona o mundo, dilacera corações e causa uma comoção universal poucas vezes vista. Lamentavelmente, fez-se necessária tragédia de tamanha proporção para que os olhos do mundo se voltassem para a realidade miserável de longa data vivida pelo povo do Haiti.
A miséria praticamente permanente na vida e no cotidiano foi traduzida na completa indignidade na morte e na despedida dos entes queridos. A necessidade humana de homenagear os mortos, mesmo que de forma simples, talvez nunca tenha sido tão desmerecida. Não havia como. Os corpos amontoados nas ruas e debaixo dos escombros foram simplesmente deles retirados e depositados de forma precaríssima e aos milhares em torno da capital destruída e também no cemitério local, denominado Grand Cimetière. Carrinhos de mão chegavam a carregar seis ou sete corpos e acabavam abandonados nas ruas do cemitério, conforme imagens publicadas na imprensa.
Questões de saúde pública e de riscos de contaminação permeiam o drama e a tristeza dos haitianos não somente com a tragédia em si, mas com a impossibilidade de oferecer um fim digno aos seus mortos. Não por outro motivo, o Governo Brasileiro, através do Ministério da Defesa, recentemente anunciou planos de colaborar na construção de um novo cemitério no país, que buscasse atenuar o desespero adicional causado pela impossibilidade de sepultamento digno e salubre dos mortos no terremoto. Além de uma questão de saúde pública, o desrespeito aos mortos insepultos simbolicamente significa o ponto mais humilhante que um ser humano pode vivenciar.
Num país onde a população, assolada por epidemias, desabrigo e fome, sucumbiu de forma desastrosa à triste ação da natureza através do terremoto de 12 de janeiro, a “dignidade final”, como poderíamos descrever, exatamente o destino final aos corpos de milhares de homens e mulheres falecidos na ocasião, sequer está minimamente ao alcance do povo local, razão pela qual realmente faz-se necessária uma solução para que, a partir de um mínimo de respeito aos mortos, o povo haitiano possa redescobrir-se e iniciar a reconstrução do país.
* Diretor Vice-Presidente da Cortel S/A